História

Por: admin

Foto antiga da orla de Olinda

Foto antiga da orla de Olinda

A disputa das terras brasileiras entre os reinos de Portugal e Espanha resultou, em 1494, no Tratado de Tordesilhas, assinado na cidade castelhana de mesmo nome, o qual dividiu o Brasil numa linha imaginaria traçada 370 légua a partir de Cabo Verde, ficando sob o domínio espanhol o território a oeste do meridiano e sob o domínio português o território a leste. As Capitanias Hereditárias constituem-se, em 1534, no regime político administrativo adotado pela Coroa portuguesa para colonizar o Brasil. Para administrar a Capitania de Pernambuco o Rei D. João III nomeou o fidalgo Duarte Albuquerque Coelho Pereira, o qual tomou a posse das terras, em 9 de março de 1535, ao realizar sua primeira expedição para o reconhecimento das terras. Como já havia, desde 1516, uma feitoria fundada entre Pernambuco e Itamaracá, Duarte Coelho tratou de seguir para o sul em busca de um lugar para se instalar. Ao se deparar com algumas colinas pensou ser o lugar apropriado para fixar um povoado, onde existia uma pequena aldeia habitada por índios Caetés chamada “Marim”, a qual logo após batizou pelo nome de Olinda.

A bela vista que se tinha do mar ao fundo era tão deslumbrante que inspirou e inspira, até os dias de hoje, quem chega ao alto das colinas. Esta percepção marcou de tal forma o fidalgo que desta situação especula-se ter surgido o nome da vila, após proferir a frase que ficou eternizada por ele: “Oh! Linda situação para se construir uma vila”. Porém, há quem diga que a expressão foi proferida por um de seus criados que o acompanhava durante a expedição. O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre também nos revela outras versões sobre a origem do nome, o qual teria sido inspirado na novela de cavalaria, Amadis de Gaula, bastante difundida na Península Ibérica, já no século XIV; ou ainda, querendo o donatário perpetuar o saudosismo de alguma cidade próxima a Lisboa, resolveu prestar uma homenagem. O fato é que, não bastasse a beleza do lugar, a posição estratégica e de fácil fortificação influenciou sobremaneira a instalação do povoado que rapidamente passaria a cidade.

No entanto, não se pode afirmar ao certo qual o dia de fundação da Vila de Olinda, para o qual se estabeleceu o dia 12 de março de 1537, quando Duarte Coelho enviou uma carta de doação das terras ao então rei de Portugal, D. João III, na qual constava toda a divisão das feitorias com seus respectivos usos. O documento ficou conhecido como a Carta Foral, equiparando-se a uma certidão de nascimento da cidade de Olinda. Os Livros Foreiros, que se encontram, hoje, guardados no arquivo público municipal, reúnem um conjunto de manuscritos composto por 54 volumes com mais de 18 mil páginas onde constam descrições do funcionamento da Vila entre os anos de 1710 e 1986. Tamanho é o valor do documento que, em 2008, a UNESCO concedeu o título de Memória do Mundo à primeira capital pernambucana.

Após a primeira década de doação, a capitania de Pernambuco era, entre as doze criadas no Brasil português, a única que apresentava uma situação mais estável. Inicialmente com o extrativismo do pau-brasil e, posteriormente, com o cultivo da cana-de-açúcar, Olinda tornou-se um dos principais centros comerciais da colônia a ponto de disputar com a Corte portuguesa em ostentação e luxo. Neste período, a Vila também desenvolveu uma infraestrutura urbana mínima para abrigar os colonizadores e servir de suporte ao povoamento.

Ao que tudo indica, a forma de ocupação, apesar de parecer aleatória, foi totalmente estratégica, uma vez que seguia a tendência das demais cidades coloniais portuguesas. Ou seja, caracterizava-se pela fortificação da Vila a começar pelas praias e pelo alto das colinas, em seguida, expandindo-se em direção ao porto, e só então, adentrando o interior, onde foram construídos os primeiros engenhos de açúcar. Assim, entre 1537 e 1630, configuraram-se o traçado urbano da vila juntamente como as principais construções ao longo da Rua Nova, bem como se instalaram, nos pontos mais elevados das colinas, as primeiras ordens religiosas. Os carmelitas, em 1580, jesuítas, em 1583, franciscanos, em 1585, e beneditinos, em 1586, todas elas exercendo a função de catequização dos índios, cujo intuito era contribuir para a conquista definitiva das terras.

É, também, desse período a construção de alguns prédios que formam o atual conjunto arquitetônico do Alto da Sé, a exemplo da Capela, e depois, Matriz de São Salvador do Mundo (1540), a Igreja da Misericórdia (1540) e a Igreja de Nossa Senhora das Graças (1550). Outra construção, das mais importantes, foi erguida, neste mesmo espaço onde teve início o povoamento, entre 1535 e 1537 por Duarte Coelho. Uma torre de pedra que servia de moradia e reduto fortificado para ele, sua esposa Beatrix de Albuquerque e seus filhos Duarte Coelho de Albuquerque e Jorge de Albuquerque Coelho nos primeiros e conturbados anos da conquista, cuja forma, segundo o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, remetia a um castelo medieval. “Do alto da colina era possível aos defensores da vila controlar grande parte do oceano, trechos do litoral norte e toda costa desde a praia de São Francisco ao maciço do Cabo de Santo Agostinho, inclusive a entrada do porto e a várzea do Capibaribe”. O Castelo em forma de forte, provavelmente, fora demolido, entre os anos de 1620 e 1630, antes mesmo da invasão holandesa, em fevereiro de 1630, posto que, conforme consta na literatura já não mais constava dos relatos e iconografia da época.

Sabe-se que até a sua morte, em Lisboa, em 7 de Agosto de 1553, o fidalgo Duarte Coelho Pereira manteve-se convicto na sua missão de colonizar a Capitania, mostrando-se, por diversas vezes, insatisfeito com a exploração desordenada de pau-brasil que ameaçava a fixação dos colonos nas terras e com a tentativa da coroa portuguesa em limitar sua autonomia em relação à administração da colônia bem como os privilégios dos colonos. O que se tornou o principal motivo de sua volta à terra natal, onde veio a falecer.

De fato, a Nova Luzitânia, prosperava e se encontrava no auge de seu desenvolvimento quando, em 16 de fevereiro de 1630, foi invadida por tropas holandesas, lideradas pelo almirante Hendrik Corneliszon Loncq, que conquistaram a Capitania de Pernambuco. No entanto, o propósito da conquista dos holandeses à frente da Companhia da Índias Ocidentais estava sobretudo atrelado ao interesse comercial, visto que Pernambuco era o maior produtor  mundial do ouro branco à época: o açúcar. Dessa forma, considerando a fortificação da então sede da colônia inviável devido ao seu alto custo, não hesitaram em transferir a sede administrativa desta para a região onde hoje se encontra o antigo porto do Recife holandês. Mas antes disso, na noite de 25 de novembro de 1631, os invasores ateiam fogo em Olinda, levando dela apenas o que achavam suficiente para construir uma Nova Holanda, para o que acharam conveniente apagar os vestígios da exitosa colonização portuguesa. Muito embora, de acordo com algumas crônicas portuguesas, a exemplo de Frei Manuel Calado, e do frei dominicano Antônio Rosado, representante do Santo Ofício, confirmem o pensamento da igreja, à época, para a qual a invasão e o incêndio foram resultado da providência divina contra toda a sorte de pecados em que vivia a população da Vila no final do século XVI.

Inicia-se, assim, uma importante fase da história da colonização brasileira que ficou conhecida como o Brasil Holandês, tendo Recife como centro urbano, administrativo e comercial bastante próspero, restando a Olinda um longo período de estagnação e esquecimento. A situação de destruição foi tão prejudicial que nem a expulsão dos holandeses,em 1654, nem a elevação à condição de cidade, em 1676, foram suficientes para que a antiga Vila ressurgisse das cinzas, já que praticamente todos os edifícios tanto os religiosos quanto as demais casas foram transformadas em ruínas, raríssimas as exceções. A retomada para um novo ritmo de crescimento só veio a ocorrer partir do século XVIII com a reconstrução dos templos religiosos, através das novas técnicas vindas do velho continente que aos poucos foram sendo absorvidas e utilizadas pelos novos artistas locais, o que levou a uma consequente expansão das artes barrocas, as quais eram financiadas pela produção e comércio do açúcar. Outro fato que contribuiu para a retomada do crescimento da cidade foi a implantação, em Olinda, dos primeiros cursos jurídicos no Mosteiro de São Bento em 1827.

Ainda que o Recife se confirmasse definitivamente como capital da província de Pernambuco em 1827, Olinda continuou firme no seu propósito de desenvolvimento, conquistando aos poucos seu espaço no cenário político do Estado. Em 1867, com o desenvolvimento dos transportes, Olinda ganha uma estação ferroviária e um trem para o transporte de passageiros, o primeiro do tipo na América Latina, o Maxambomba, uma pequena locomotiva com uma cabine descoberta que puxava dois ou três trilhos, que facilitaria o deslocamento para o Recife, até ser substituído pelos bondes elétricos a partir do século XX. Mais tarde, uma característica peculiar foi atribuída as suas praias, o que permitiu tornar-se uma referência na procura pelos banhos de mar, como prática saudável recomendada pelos médicos no início do século XX. A qualidade do mar atraiu muitos veranistas que depois passaram a moradores, resultando na construção de várias casas nas imediações do que se conhece hoje como os bairros do Carmo e Milagres, expandindo-se para o Farol e Bairro Novo. A tudo isso se soma a própria modernização das construções da cidade, das fachadas, do sistema de abastecimento de água e de eletrificação.

Com seus 479 anos de história, Olinda ostenta os títulos de Monumento Nacional (1980); Patrimônio Cultural da Humanidade (Unesco-1982), Cidade Ecológica (1982) e Primeira Capital Brasileira da Cultura (2006) tendo como principais requisitos suas belezas naturais, sua cultura e a preservação dos seus patrimônios materiais e imateriais.

GOUVÊA, Fernando da Cruz. Maurício de Nassau e o Brasil Holandês: Correspondência com os Estados Gerais. 2ª Ed. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2006.
LINS, Marcelo. A Torre Fortaleza de Duarte Coelho. Jornal O Mirante de Olinda. Ed. 05 de Out. 2011. Disponível em: http://omirantedeolinda.com.br/a-torre-fortaleza-de-duarte-coelho/. Acesso em: 07 de Janeiro de 2012.
MENEZES, José Luiz Mota, in Evolução Urbana e Territorial de Olinda: do Descobrimento aos Tempos Atuais – A Vila de Olinda – 1537-1630.
SILVA, Leonardo Dantas. Olinda, A Primeira Capital Brasileira da Cultura. Revista Continente. Ano IV, nº 42. Recife: 2006.